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Jorge Eurico



E já lá vão 35 anos...

Entre dias sem pão (e foram muitos) e pão sem dias (foram mais ainda) e acreditando no impossível, porque o possível faz-se todos os dias, eis que acabo hoje de completar 35 anos.

Pois foi na manhã de uma quarta-feira, um ano após a «Revolução dos Cravos» em Portugal, que, numa das maternidades da antiga Nova Lisboa, a Drª. Filomena Leonardo, a tia Mena, (tive o grato prazer de a conhecer aqui há uns tempos, pois apresentou-ma a minha mãe) me estendeu a mão para que, finalmente, eu viesse ao mundo.

Conta a minha mãe que fui registado e baptizado na Conservatória e na Sé Catedral local quinze dias depois de ter nascido. Foi assim que ganhei personalidade jurídica como cidadão.

Foi assim que ainda bambino e em posse da Cédula e da Certidão de Nascimento apanhei, de forma natural, o comboio da Angola, que meses depois deixaria de estar sob a bota de António de Oliveira Salazar.

Portanto, isto para dizer que a diferença entre mim e o País é de meses apenas. Sou mais velho do que ele. E há muitas diferenças entre nós.

A dissemelhança entre mim e a República de Angola consiste no facto de me preocupar com ela e ela estar-se nas tintas em relação a mim.

A desigualdade entre mim e o (des)Governo angolano consiste no facto de haver um acentuado grau de desamor por parte do Executivo em relação ao cidadão.

A desconformidade entre mim e o (des)Governo do meu País consiste no facto de mostrar-se despreocupado e nem perguntar aos cidadãos o que é que a pátria pode fazer por mim e por todos os descamisados, meus companheiros inseparáveis do infortúnio e de desventuras várias, com os quais cruzo diariamente na estrada escabrosa da vida que (não) temos.

Perguntar-me-ão porque razão falo (escrevo) assim. Interrogar-me-ão de certeza, certezinha, se não conheço o preço da paz (não social) para Angola.

Insinuarão que estou revoltado. As bocas foleiras não hesitarão em atribuir-me um partido político. E normalmente tendem a atribuir-me uma filiação partidária com o respectivo cartão.

Normalmente "inscrevem" o meu nome apenas em dois partidos políticos: o MPLA ou UNITA como se os outros não existissem mesmo em face do discurso já em desuso dos dois primeiros!

Ora bem, quando isso acontecer podem crer que não me hei-de calar! E quem me difamar pode acreditar que me terá à perna. Porque admito que vamos tendo, aos poucos, um País onde a Liberdade de Expressão vai sendo consolidada.

Por isso é que tenho esta coluna para dizer o que penso e porque penso que a verdade é o melhor predicado que devemos seguir.

Porque penso que aqui a minha liberdade é (quase) total. E só é quase total porque melhor do que pensar (e escrever) livremente é pensar e escrever com rectidão, é ter a noção de que a minha liberdade começa onde (não) termina a dos outros.

Por ser mais velho (de meses) que o País levo uma vantagem sobre ele. Angola perde para mim pelo facto de ter aprendido que - e contrariamente ao tempo em que era bambino - há amigos e amigos.

E apesar de ser amigo dele, me parece que o País não o é para comigo nem para com o povo, o principal elemento de um Estado.

Isto vê-se claramente na relação de ódio e desamor existente entre o povo e o (des)Governo de Angola.

Ao longo destes anos descobri, por exemplo, que amigos são todos aqueles que me estenderam - o tio Dário foi (é) um deles e não tenho como retribuir toda a ajuda e atenção que sempre me prestou e continua(rá) a prestar certamente sempre que necessário for - a mão e me ajudaram a tirar inúmeras pedras do caminho.

Aprendi ao longo destas três décadas e meia que amigos são, afinal, todos aqueles que nos ajudam remover obstáculos e a contornar montanhas.

Porque inimigos temo-los em casa, no serviço ou ainda na universidade sempre prontos e atentos para nos rasteirarem de sorte que, ao cairmos na primeira valeta, não consigamos entregar a Carta a Garcia.

Enfim, são cenas e retalhos de uma vida de trinta e cinco anos!

Nota: Alterei a minha idade. De resto tudo na mesma, tal como há um ano.

jorgeeurico@noticiaslusofonas.com
25.04.2010



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