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using defalts layout Portugal é o seu povo. Naturalamente. Mas nos grandes dias, nos dias em que é preciso expressar a gratidão de todo um povo a alguém que projectou o país para além fronteiras, que contribuiu decisivamente para o respeito internacional em relação à cultura portuguesa, o povo anónimo é representado pelo Presidente da República. É ele que representa Portugal e dá voz ao seu povo expressando o respeito e apreço pela obra daqueles que contribuiram para a projecção de Portugal no mundo. É ele que, em nome do povo que representa, agradece e presta a derradeira homenagem àqueles que deram o seu decisivo e abnegado contributo para um Portugal maior.

No dia de todas as homenagens a José Saramago, em que até governos estrangeiros se fizeram representar na derradeira viagem à sua última morada e lhe prestaram sentida homenagem, ao povo português não foi dada voz para expressar a sua gratidão ao homem e ao escritor por tudo o que fez por este pequeno país.

A voz do povo português estava de férias nos Açores. O funeral de um serralheiro mecânico não foi, obviamente, motivo para que fossem interrompidas. Portugal não esteve presente!

No dia que se seguiu à morte de José Saramago muitos jornalistas perguntaram a diversos entrevistados nos seus programas se José Saramago se teria já reconciliado com Portugal. Pergunta errada. José Saramago sempre amou Portugal. Por isso mesmo era crítico.
Se José Saramago tivesse aproveitado o facto de viver em Lanzarote para passar a ter os seus rendimentos off shore e deixasse de pagar os seus impostos em Portugal ou se ganhasse na bolsa dinheiro de empresas que os portugueses pagam com os seus impostos talvez fosse considerado um grande patriota.
A pergunta correcta deveria ser: Será que Portugal se reconciliou com José Saramago? A resposta é, obviamente, Não!
Não. Porque ele criticava. Não. Porque ele pensava livremente. Não. Porque ele dizia o que pensava. Não. Porque ele não se baixava. Não. Porque ele se mantinha erecto. Não. Porque ele não se aproveitava de Portugal. Não. Porque ele queria um Portugal justo. Não. Porque ele não queria um país de gente pequenina. Não, e isso é imperdoável, porque ele, um simples serralheiro mecânico que não pertencia às "elites", ousou conquistar para Portugal um lugar na História.

Por todos estes atrevimentos José Saramago pagou. E no dia do seu funeral, no dia em que Portugal lhe devia uma derradeira homenagem e sincero agradecimento, Portugal não estava lá.

Por isso Portugal continua a ser um país pequeno.


António J. Ribeiro