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Serafim Marques



Morrer, quanto mais tarde melhor?

Há tempos, dizia-me o meu cardiologista, ainda jovem e para me sossegar dos meus medos da morte, que há dezasseis anos eu corri o risco de influenciar, negativamente, a estatística da esperança média de vida (EMV), pois o primeiro enfarte agudo do miocárdio que me vitimou poderia ter sido fatal.


Enfatizou, como se eu já não soubesse, que este tipo de patologia é considerada uma doença grave, pelo que o tempo que eu já vivi, após aquele episódio e apesar de ter tido outro seis anos depois, faz com que os meus actuais sessenta e dois anos já me aproximem mais da EMV. Aquela observação e dita assim, senti-a como um prémio, mas também como um castigo, pois ainda me faltam alguns anos para entrar na EMV dos homens no nosso país (75 anos; a das mulheres é de 81,2 anos). Para esta média estatística contribuem os valores dos extremos, isto é, gente que atinge idades provectas, que eu gosto de chamar “bonita idade”, mas outros que morrem prematuramente. Teria sido o meu caso, se, naquele fim de dia, não tivesse corrido para a urgência do hospital da minha zona, apesar de, na época, não saber o que era um enfarte do miocárdio. A rapidez da (minha) acção e da assistência hospitalar, salvou-me a vida, pois a conjugação destas duas etapas pode significar a diferença entre a vida e a morte prematura nas doenças cardio-vasculares.
Por várias razões, a EMV tem vindo a subir no nosso país, mas não é expectável que continue a subir, pois aqueles cidadãos que têm contribuído para este indicador, são gente feita de “outras cepas”, apesar de terem vivido tempos difíceis ou talvez por isso. Os erros que a população mais nova hoje vai cometendo (alimentação, tabaco, drogas, etc), poderá inverter essa tendência. Todos nós teremos que morrer e, normalmente, a certidão de óbito refere uma causa ou doença, pelo que as estatísticas acabam por ficar viciadas. Por exemplo, dizer que x % dos portugueses morreram vitimados pelas doenças cardio-vasculares, não tem o mesmo significado que dizer que y % dos portugueses, com menos de sessenta e cinco anos, morrem por causa deste tipo de doenças graves, pois os idosos também morrem com as ditas doenças do coração. Todo o ser humano merece o nosso respeito, na vida e na morte, embora esta quando ocorre na bonita idade não represente a mesma dor que as mortes com idades prematuras. Mas, alem da morte física, existe ainda a ” morte” em vida e esta pode ter várias razões e formas, muitas delas causadas pelas consequências da organização actual da sociedade, sem esquecer o efeito da rotura intergeracional familiar, provocadas pela desestruturação das famílias. A baixa natalidade, fenómeno que não é de agora mas que tem vindo a agravar-se, tem acabado com muitas árvores genealógicas, pelo que muita gente não tem qualquer familiar, mesmo afastado, que, no mínimo, lhe faça o funeral. Os tristes exemplos dos cadáveres de idosos encontrados em casa, bem como o número deles que vivem sós, reflectem essas roturas intergeracionais, no espaço geográfico mas também na consanguinidade.
Por estes dias, visitei várias vezes um vizinho, de oitenta e cinco anos, que foi internado, pela primeira vez na sua vida,(!) mas, pela observação que fui fazendo em cada visita que lhe fiz, me parecia que aquele poderia ser o primeiro e o seu último internamento. Assim foi e acabou por falecer dez dias depois de ter sido internado. O seu colega da cama do lado, que tinha a mesma idade, mostrava-se muito agastado, porque ainda tinha energia para isso, disse-me que sempre foi cuidadoso com a saúde e agora estava ali há cerca de um mês internado e os médicos não descobriam a origem dos seus males. Quando lhe disse a minha idade e a minha doença (apesar de invisível), mudou um pouco de tom e, se eu fizesse como o meu cardiologista, dir-lhe-ia que ele já ultrapassou a EMV ou, como às vezes digo a outros, quem me dera chegar à sua bonita idade. A maioria das pessoas não querem morrer, pelo que é legítima a sua revolta com as doenças que as acometem, mas grave e extremamente doloroso é o que sentem todos aqueles que, na plenitude das suas vidas, vêem os seus projectos e sonhos interrompidos, muitos deles zelosos pela sua vida e saúde! Esses têm razão para sentirem, no corpo e na alma, as consequências da adversidade e infelizmente, para muitos doentes, a solidão e a falta de solidariedade acaba por ser um duplo castigo na desgraça da sua doença e do seu sofrimento.
“Enterrar os mortos e cuidar dos vivos” é uma máxima muito antiga e cujos familiares, em particular, e a sociedade, em geral, têm por dever e missão. Se o desenvolvimento da medicina tem dado um forte impulso nesse “cuidar e curar dos vivos”, contribuindo para o aumento da EMV e da diminuição do sofrimento, refiro-me aos países desenvolvidos, faltam outros cuidados necessários até à etapa final da vida humana, isto é, o “depósito dos restos mortais no cemitério”, com dignidade. Estes são novos desafios das sociedades actuais, mas que está a falhar nesta missão, mais preocupada com outros valores. Mas o “futuro é velho” e se é verdade que todos desejamos chegar a essa bonita idade e com sentido de vida, temos que olhar, individual e colectivomente, para ess futuro e que já é presente para muitos idosos. Onde estão ou estarão os cuidadores, ameaçados em número pela baixa natalidade e dificultando a renovação das gerações, em rotura de valores? Este é um grave problema do nosso país a que urge deitar mãos, mas é uma tarefa de todos (famílias, Estado, instituições, etc). O vergonhoso número de idosos encontrados mortos nas suas casas, já mexeu com muitas consciências e pôs em marcha algumas acções no sentido de minorar os efeitos da solidão e o abandono dos nossos idosos. Assim se faça, porque todos desejamos chegar a velhos!

Serafim Marques - Economista



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