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Serafim Marques



Este clima que nos atrofia

Num ano de crise, logo o S. Pedro nos deveria também castigar com um Inverno sem chuva, cheio de sol e com temperaturas muito acima da média dum inverno preste a dar lugar à Primavera que, na realidade climática, há muito começou.


Os reflexos económicos são devastadores e sê-lo-ão também nas matas e na floresta pois a época de incêndios começou bem cedo e agravar-se-à num Verão que se estima seja seco, como reflexo das condições climatéricas das estações precedentes. Tudo indica que a “indústria dos fogos” será forte este ano e, como é normal, movimentará muitos meios humanos, logísticos e financeiros, mas as perdas serão enormes. Ironicamente, os fogos animam as economias locais (bombeiros, meios aéreos, imprensa, etc). Contudo, quantos “euros se queimam” com os fogos que, ano após ano, não conseguimos evitar, porque não sabemos ou não queremos? Expliquem-me, por que há tantos fogos, incluindo neste período de temperaturas amenas?
Obviamente que as barragens têm prós e contras mas face às irregularidades climáticas e de pluviosidade, isto é, muito sol, pouca chuva (ou trovoadas devastadoras) e temperaturas muito altas, o que seria do nosso país se tais não existissem? Toda a chuva que caísse correria para o mar, desperdiçando-se o potencial da água, nas suas múltiplas aplicações, mas acima de tudo como reserva vital. Por isso, custa a entender o romantismo dos ecologistas e ambientalistas que, em defesa dos “bichinhos”, contestam a construção das barragens. Não se põe em causa a importância da ecologia e da “vida na terra”, incluindo o “bicho homem”, mas sejamos pragmáticos e realistas, porque se assim tivesse o homem agido, ao longo do seu desenvolvimento (que eles contestam mas do qual beneficiam) ainda hoje viveríamos como Adão e Eva!
Mas voltando à influência deste clima mediterrânico seco na nossa economia, nas nossas atitudes e comportamentos, o balanço entre os prós e contras é bastante negativo, porque este sol e estas temperaturas não influenciam só a nossa agricultura, mas também a nossa predisposição para o trabalho. Psicologicamente, este clima desmotiva-nos para o estudo e o trabalho, pois é um forte convite ao ócio. Ir para a escola ou para o trabalho , quando o sol brilha e aquece, é um “castigo” muito forte e que se reflecte na nossa produtividade. Ao invés, os povos do norte não sentem esse sacrifício. Alguns historiadores e economistas dedicaram-se a estudar as razões e as justificações das desigualdades na riqueza das nações e concluíram que dentre vários factores, o clima é um deles. Constatam, assim, que os países dos climas frios do norte são mais ricos do que aqueles onde o clima é menos agreste. Ali, o povo, mesmo sofrendo as duras condições climáticas, têm um apego maior ao trabalho, porque não sente tanto o apelo pelo ócio como os povos dos climas temperados ou quentes do sul. Nestes, as elevadas temperaturas das zonas equatoriais influenciam ainda mais negativamente as condições de vida e de longevidade.
Para muita gente do “sul”, mais cigarras do que formigas e impedida de usufruir este sol e este clima, porque está “amarrada” a um emprego, toda a semana é passada em angústia e de expectativa pela chegada do fim de semana, mas logo na tarde de cada domingo se instala novamente o stress e a psicose de mais uma semana de sacrifício que se iniciará. Pois é, mas como desempregados vivem outro tipo de angústia, diferente daquela que viviam enquanto tinham emprego! Paradoxos daqueles para quem o emprego (trabalho!) é um direito mas não tanto um dever!
Alguns românticos dizem que o nosso país tem um clima maravilhoso para se trabalhar e que este deveria ser um factor de cativação para que trabalhadores estrangeiros e mais empresas para aqui viessem trabalhar e investir, argumentando que possuímos as condições ideais para isso. O nosso clima é de facto bom para a indústria do sol (energia solar, turismo, etc) mas não favorece, pelas razões atrás invocadas, muitas das outras actividades. Ele acaba assim por influenciar as atitudes e os comportamentos que condicionam o nosso desenvolvimento individual e colectivo. Este clima, com uma forte influência para o hedonismo, afecta as mentalidades e a assunção de valores pouco compatíveis com as exigências das sociedades desenvolvidas. Os países europeus da zona mediterrânica não fazem parte do pelotão dos países mais ricos da Europa, todos eles localizados mais a norte, e com climas muito diferentes do nosso e onde o sol e a temperatura não os “desvia” das suas obrigações cívicas, porque o trabalho é um dever cívico e de cidadania. É um direito? Sim, mas também um dever. Mas o ócio e o lazer tem que ser merecido. É preciso criar primeiro riqueza para ser “gasta” no lazer.
Estas duas crises, que se complementam vão “derreter mais a nossa carteira” mas vão também exigir de todos nós mais mudanças de atitudes e de comportamentos, visando atenuar os efeitos económicos, sociais e ecológicos. Por exemplo, a preservação dos recursos naturais, com destaque para a floresta e a água, como bem vital e fortemente ameaçado por esta seca, mas também pelas agressões que vamos cometendo sobre a mãe natureza. Sem chuva, com sol e aquecimento, as “fontes” secam e com com elas mingua a nossa qualidade de vida! Este clima atrofia-nos.

Serafim Marques - Economista




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