A celebração dos 500 anos de Luís de Camões, ocorrida em 2024, e que se está ainda a celebrar no ano que os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) celebram 50 anos das suas independências, representa um momento de reflexão e homenagem à figura do primeiro grande poeta da língua portuguesa, cuja influência transcendeu fronteiras e gerações.
Camões, autor de obras emblemáticas como “Os Lusíadas# ou das peças teatrais “El-Rei Seleuco”, “Filodemo” e “Anfitriões”, bem como a coleção de poesia lírica “Rimas”, é considerado o principal responsável por consolidar a língua portuguesa como uma língua de cultura, história e identidade, tanto em Portugal, quanto nas suas antigas colónias.
Recordemos que Luís de Camões, segundo se pensa, terá nascido por volta de 1524 – pelo menos está já definido como ano oficial –, na cidade de Lisboa, e viveu em um período marcado por intensas transformações sociais, políticas e culturais. Faleceu a 10 de Junho de 1580, data que é celebrada por Portugal como “Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas”
A obra literária de Camões reflecte a época onde se começava a dar mais relevo à racionalidade em oposição à teologia cristã que se tinha imposto na Idade Média, e retrata uma profunda admiração pela história, mitologia e cultura dos povos por onde mareou, além de ter explorado temas universais como o amor, a aventura, a honra e a condição humana. “Os Lusíadas”, a sua épica obra-prima, celebra as viagens de Vasco da Gama e a expansão marítima portuguesa, consolidando a narrativa epopeica da nação portuguesa e promovendo a língua portuguesa como instrumento de expressão literária de alta qualidade.
A importância de Camões para a língua portuguesa é imensa. A sua poesia e sua capacidade de articular emoções complexas contribuíram para enriquecer o vocabulário, a sintaxe e a expressividade do idioma português, influenciando gerações de escritores e poetas. Além disso, a sua obra ajudou a estabelecer padrões de escrita e de estética literária que perduram até hoje. Dai que a celebração dos 500 anos de Camões – vai ocorrer, em Moçambique, em Junho próximo, o II Congresso dos 500 anos do seu nascimento, em que aquele país lusófono, reconhecido como “Princesa do Índico”, vai dar ênfase à relação do poeta português com o Oceano Índico e o território moçambicano – se torna, numa oportunidade de reconhecer a sua contribuição para o património cultural, especialmente em países como Angola, de que ressalvo, onde a língua portuguesa é uma das principais marcas de identidade e a língua veicular nacional, que soube acolher muitos dos termos nacionais angolanos.
Em Angola, não podemos deixar de reconhecer e como eremos a seguir, a influência de Camões ainda é particularmente significativa. Como uma antiga colónia portuguesa, o país herdou a língua e muitas tradições culturais de Portugal, e a obra de Camões desempenhou – e ainda desempenha face ao impacto que tem sobre alguns reconhecidos escritores nacionais – um papel central na educação, na literatura e na cultura angolana.
Desde os tempos coloniais, autores angolanos se têm inspirado na poesia camoniana para expressar suas próprias experiências, anseios e identidades. Poetas como Agostinho Neto, que alguns consideram o poeta-mor da literatura nacional – o que não será na opinião de Agualusa, numa polémica entreista dada ao então semanário Angolense, 15 de Março de 2008 –, usaram elementos da tradição literária portuguesa para fortalecer a narrativa de luta, liberdade e esperança. Neto, por exemplo, embora predominantemente focado na temática da libertação e identidade africana, que admirava a poesia clássica, em geral, também fez referências e rendeu homenagem à poesia clássica portuguesa, incluindo a obra de Camões, como parte do seu processo de afirmação cultural e literária, incorporando-a na sua própria escrita, como forma de promover um diálogo entre as raízes portuguesas e as realidades angolanas.
Ao longo do tempo, muitos outros autores angolanos continuaram “a dialogar” com a obra de Camões, buscando uma síntese entre o legado colonial e a identidade nacional. No presente, nomes como Pepetela, Manuel Rui Alves ou Ondjaki, por exemplo, mostraram-se influenciados por temas camonianos, especialmente na abordagem de questões de honra, história e a condição do homem na sociedade. Mas, também, outros autores como, José Luandino Vieira, que, embora seja mais reconhecido por sua escrita experimental e temática social, alguns de seus textos não deixam de reflectir a valorização da cultura portuguesa e a conexão com a legado literário de Camões, especialmente na celebração da língua e da história de Portugal e Angola; ou Viriato da Cruz, um dos poetas mais importantes da luta pela independência de Angola – e um pouco esquecido –, cuja obra, às vezes, parece dialogar com os temas clássicos da literatura portuguesa, incluindo a influência de Camões na formação do cânone literário lusófono.
A poesia de Camões, com sua musicalidade e profundidade emocional, ainda inspira muitos destes escritores lusófonos na busca por uma expressão própria, sem que, ao mesmo tempo, deixe de manter viva a memória de uma tradição literária que atravessa o Atlântico e chega ao Índico.
De registar que além dos autores angolanos, a obra de Camões tem sido uma fonte inesgotável de inspiração para escritores de todo o mundo lusófono.
No Brasil, por exemplo, autores como Machado de Assis e Carlos Drummond de Andrade reconheceram a importância do poeta português, seja na sua estética, seja na sua abordagem de temas universais. Já em Moçambique, Mia Couto, cuja influxo literário é importante na e para a literatura de língua portuguesa, seja em África, como em Portugal e Brasil, faz, frequentemente, referências à tradição poética portuguesa, incluindo Camões, especialmente na valorização da língua e na exploração do imaginário cultural comum.
E consideremos, igualmente na literatura lusófona, o poeta e ensaísta cabo-verdiano, Gershwin Lainé que expressa uma forte ligação com a língua portuguesa e com a tradição literária, incluindo referências e homenagens a Camões, como símbolo da poesia e da cultura lusófona; ou o poeta e ensaísta Bissau-guineense Bruno Moquém que incorpora na sua poesia elementos clássicos da tradição portuguesa e referências a Camões, procurando estabelecer uma ponte entre a poesia clássica e as expressões culturais africanas. Quanto à literatura timorense, apesar de não reconhecer, no imediato, algum autor que goze de uma influência directa de Camões, não podemos esquecer qu a maior parte da literatura timorense é assente numa forte componente de resistência e identidade nacional – e Xanana Gusmão, prémio literário de poesia Guerra Junqueiro, em 2022, pela sua poesia de guerra é exemplo disso.
Também em Portugal, figuras como Fernando Pessoa e José Saramago reflectiram sobre o legado camoniano, integrando suas influências nas suas próprias produções literárias. Pessoa, com sua multiplicidade de heterónimos, muitas vezes dialogou com a tradição clássica e com a poesia de Camões, buscando renovar a literatura portuguesa sem perder suas próprias raízes.
A celebração dos 500 anos de Camões acaba apor ser, também, uma oportunidade de reforçar os laços culturais entre Portugal e os países de língua portuguesa – mas, igualmente, com outros países ditos “não-lusófonos”, mas que contêm palavras no seu léxico nacional, como, recentemente, se pôde constatar no Dia de Portugal, na Exposição Mundial de Osaka (Japão) 2025, ou na ligação entre a China e o Mundo Lusófono, via Macau.
Esta celebração pode e deve ser um momento para valorizar a literatura afro-luso-brasileira e timorense como ponte de interligação e conexão, reconhecimento mútuo e fortalecimento da identidade comum, ainda que que cada uma destas tenha a sua base nacional, o que torna a língua portuguesa das mais multi-culturais pela sua diversidade.
Em suma, Luís de Camões continua a ser uma figura central na história da literatura mundial e da língua portuguesa. A sua obra não apenas ajudou a desenvolver e consolidar o “moderno” idioma português, mas também inspirou gerações de escritores brasileiros, africanos e timorenses, que continuam a explorar, reinterpretar e celebrar a sua poesia.
Eugénio Costa Almeida
*Pós-Doutorado; Investigador do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE-IUL (CEI-IUL), Investigador-Sénior Associado do Centro de Estudos para o Desenvolvimento Económico e Social de África (CEDESA/Angola Research Network) e Investigador-Associado do CINAMIL **
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