Em entrevista ao Notícias Lusófonas, o eurodeputado do PSD Arlindo Cunha afirma que é preciso, além de urgente, dar mais apoios aos Países em Vias de Desenvolvimento. Reivindica, por isso, uma estratégia europeia diferente da que está a ser praticada e que seja mais sustentável.
Noticias Lusófonas – Como deve ser o apoio da União Europeia aos países em vias de desenvolvimento (PVD)?
Arlindo Cunha – “O apoio da União Europeia deve basear-se mais no desenvolvimento sustentável dos recursos endógenos, o que significa essencialmente obter a meta da auto-suficiência alimentar. Sem prejuízo de outros projectos mais voltados para a exportação, esse apoio ao desenvolvimento endógeno deve implicar uma revisão da estratégia até agora seguida, designadamente através das prioridades estabelecidas no quadro do Fundo Europeu de Desenvolvimento (FED) e do Acordo de Cottonou”.
NL – E quanto à Política Agrícola Comum?
AC – A PAC pode não ser a política mais perfeita do mundo. Criou, de facto, muitos excedentes no passado que tiveram que ser eliminados à custa de subsídios às exportações, os quais prejudicavam inquestionavelmente os interesses de alguns PVD, em virtude de permitirem a chegada a esses mercados de produtos a preços muito baixos. Importa, porém, referir que essa componente da PAC está hoje reduzida a menos de um terço do que era há 10 anos e que a UE não é a única que tem culpas no cartório. Outras grandes potências têm a mesma prática de subsídios às exportações, ainda que através de instrumentos diferentes dos da UE, como é designadamente o caso dos Estados Unidos da América.
NL – Apesar de todas as limitações, a UE é hoje, de entre os países ricos, o mercado que mais acesso dá aos produtos dos países mais pobres…
AC – Exacto.. Basta lembrar que é o primeiro importador mundial de produtos agroalimentares e que as importações originárias dos PVD ascendem a mais de 27.000 milhões de euros por ano, ou seja mais do que a soma das importações realizadas pelos Estados Unidos, Japão, Nova Zelândia, Canadá e Austrália, juntos. Além disso, a UE e os seus Estados Membros são, de longe, os que mais apoiam esses países, com 27.600 milhões de dólares de ajuda ao desenvolvimento, contra, por exemplo, 10.600 milhões do Japão e 8.800 milhões dos Estados Unidos.
NL – No no quadro das negociações da Organização Mundial do Comércio (OMC) tem sido a UE a puxar mais pela necessidade de uma discriminação positiva forte a favor dos PVD?
AC – Tem sido assim. É que lhe coube a ela a até agora mais importante iniciativa a favor dos 50 países mais pobres do mundo: a iniciativa Tudo Menos Armas, que se propõe receber no mercado comunitário os principais produtos desses países sem quaisquer contrapartidas. E não deixa de ser frustrante verificar que até agora nenhum outro país rico tomou iniciativa semelhante”.
Entrevista conduzida por Orlando Castro
Nota do editor: Esta entrevista constitui um exercício de nostalgia e de apreço pelos vários intervenientes. Com a devida vénia ao entrevistado, Dr. Arlindo Cunha, e ao entrevistador, o Jornalista angolano Orlando Castro, indefectível amigo e apoiante do Notícias Lusófonas desde a sua fundação, publicamos como primeira entrevista desta nova versão do Notícias Lusófonas exactamente a primeira entrevista feita para este jornal online, em 2002, aquando do seu lançamento como site independente de Portugal em Linha, onde estava integrado desde 1997.
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