A cantora e compositora Iara Rennó falou ao Podcast ONU News sobre como o português favorece a expressão artística; ela busca inspiração na literatura e na sonoridade das palavras para criar obras autorais e canções para outros intérpretes.
A música é uma das formas pelas quais a língua portuguesa se espalha pelo mundo e ganha novos admiradores. De acordo com a cantora e compositora brasileira Iara Rennó, o idioma lusófono é rico em sons que potencializam a produção musical.
“A gente tem isso e é muito prolífico para trabalhar sonoramente, para trabalhar musicalmente. Eu acho que é por isso que a nossa música é tão forte. Esse é um dos motivos. É um dos pilares, porque a gente tem aí uma série de sons de fonemas e de aliterações, de assonâncias que a gente consegue usar com muita musicalidade, seja em textos poéticos, em textos de prosa ou nas letras de música. A gente tem essa abrangência sonora mesmo da língua”.
A artista explicou que seu primeiro álbum a solo foi inspirado no livro Macunaíma, do escritor brasileiro Mário de Andrade. Ela ficou fascinada ao observar como a obra explora o encontro da língua portuguesa com idiomas indígenas e africanos, dando origem ao “português do Brasil”, e decidiu trabalhar essa diversidade na música.
Iara Rennó já gravou mais de 150 músicas entre trabalhos autorais e interpretações de suas composições por outros artistas como Ney Matogrosso, Elza Soares, Tom Zé, Tulipa Ruiz, entre muitos outros.
Ela explicou que cada parceria possibilita um novo “mergulho poético” no idioma e revelou como escuta as palavras surgindo em meio às melodias.
“Eu vou pegando também da musicalidade ali da melodia que a pessoa mandou e vou pescando os sons que estão implícitos ali. E dali vão surgindo as palavras. Então tem uma música que, por exemplo, ele mandou: ‘Nanã, Naná’. Então tem esse: ‘Oh, Aã’. Só dele ter feito isso na melodia, para mim já veio. “Oh, mãe do mar, Oh mãe”. Então eu tenho esse tipo de troca com ele. Já no caso do Macunaíma: Ópera Tupi, eu não escrevi nada. Todas as letras, todas as palavras vem realmente do livro. Eu editei alguns trechos, mas eu não inventei nada, não escrevi nada. Eu fiz as melodias, os arranjos, as criações musicais mesmo”.
A cantora considera a língua um “organismo vivo e em movimento”, que vai se alimentando de novas palavras ou fazendo com que velhas palavras ganhem novos significados.
Ela acredita que existe uma forte influência do inglês hoje no Brasil, fazendo com que palavras anglófonas sejam integradas no vocabulário, na forma de neologismos. Para Iara Rennó, a música, e as artes em geral, tem o papel de impedir que essa tendência ameace a preservação de elementos essenciais do português.
“E acho que nesse processo pode ser que a gente perca também algumas belezas, né? Então eu acho que as artes no geral, e a música e a literatura principalmente, que tem a língua como material principal, são fundamentais para a gente ter esses registros de diferentes épocas, registros das línguas em diferentes épocas. E para a gente ter isso sempre como como um ponto de partida, como um ponto de pesquisa. A língua está ligada também muito à nossa memória afectiva. E eu acho que essas expressões, essas linguagens artísticas, têm uma função muito importante em criar e manter esses vínculos entre a memória afectiva e a comunicação”.
A compositora afirma que a expressão artística é capaz de “orquestrar” as diversas funções da língua e principalmente preencher o espaço da memória afectiva, possibilitando olhar para o passado para construir linguagens e novas maneiras de expressão da língua para o futuro.
Por Felipe de Carvalho / ONU News
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