Em Angola, as medalhas chovem como arroz em casamento político. Já ninguém sabe se uma condecoração é sinal de mérito, de amizade ou de conveniência. O Presidente João Lourenço aproxima-se do recorde de Marcelo Rebelo de Sousa, com quase mil distinções atribuídas desde que subiu ao trono do poder. Mas a pergunta que ecoa nas ruas e nos corredores da vergonha nacional é esta: quem está a ser condecorado, e porquê?
Por Malundo Kudiqueba
Não se trata apenas de números, mas de símbolos. Uma medalha deveria ser uma celebração da honra, não um selo dourado de impunidade. Contudo, em Angola, temos generais condecorados que construíram fortunas sem explicação, empresários louvados que vivem à sombra do erário público, e políticos elevados a heróis enquanto o povo rasteja nos escombros da pobreza.
A condecoração, quando atribuída sem critério, transforma-se numa ofensa pública. E quando até os corruptos recebem medalhas, o Estado está, na prática, a legalizar o saque. Como podemos educar as novas gerações para a ética, se os medalhados são, muitas vezes, os campeões da imoralidade nacional?
João Lourenço parece disputar com Marcelo Rebelo de Sousa uma corrida simbólica para ver quem distribui mais medalhas em menos tempo. Só que, em Portugal, por mais que se critique o excesso de distinções, há instituições que funcionam, há escrutínio público, há imprensa livre. Em Angola, a medalha serve muitas vezes para calar, para fidelizar, para domesticar.
O critério? A lealdade ao sistema. O mérito? O silêncio cúmplice. O prémio? Uma medalha ao peito e um lugar no altar da hipocrisia nacional.
Não há problema em condecorar quem realmente serviu o país com dignidade. Há médicos, professores, agricultores, artistas e cidadãos anónimos que, esses sim, deviam ser elevados a símbolos nacionais. Mas isso exige uma ruptura com o hábito de premiar os de sempre: os intocáveis, os bajuladores de luxo, os gestores de esquemas.
Num país onde falta pão, saúde, educação e justiça, distribuir medalhas a torto e a direito é como oferecer perfumes caros a quem não tem água para tomar banho.
O povo não se alimenta de medalhas. O respeito não se compra com placas douradas. E a História não perdoará os que trocaram o reconhecimento verdadeiro por uma fábrica de condecorações em série. João Lourenço pode até ultrapassar Marcelo Rebelo de Sousa no número de homenagens, mas se não mudar os critérios, ficará para sempre atrás no essencial: a credibilidade.
E é essa, no fim, a única condecoração que vale — a que o povo atribui no coração.
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