OMS alerta para cortes de financiamento contra tuberculose e destaca avanços de países lusófonos

Jojo

A Organização Mundial da Saúde, OMS, indica êxitos moderados no combate à doença, mas adverte sobre nova fase de escassez financeira, que ameaça comprometer os objectivos de erradicação até 2030.

A tuberculose continua a ser uma das 10 principais causas de morte no mundo e a primeira entre as doenças infecciosas isoladas, como revela o Relatório Global da Tuberculose 2025, divulgado agora pela OMS.

Apesar dos números apresentados no relatório representarem uma ligeira melhoria em relação a 2023, a OMS alerta que o progresso global permanece insuficiente para alcançar as metas estabelecidas na Estratégia Fim da Tuberculose, que prevê reduções de 50% na incidência e 75% na mortalidade até 2025.

O documento também apresenta dados específicos sobre países de língua portuguesa, incluindo Brasil, Angola e Moçambique, que aparecem entre os de alta carga de tuberculose acompanhados pela OMS.

Durante o lançamento do relatório, o director-geral da OMS, Tedros Ghebreyesus, destacou que o mundo atravessa “um período crucial”. Segundo ele, mesmo enquanto se precisa cumprir os compromissos da segunda reunião de alto nível da ONU sobre tuberculose,  “entramos numa nova fase de escassez”.

A OMS reafirmou a meta de trabalhar com doadores, parceiros e países afetados para mitigar o impacto dos cortes de financiamento, encontrar soluções inovadoras e mobilizar compromissos políticos e financeiros para acabar com a tuberculose.

O Brasil manteve uma das maiores taxas de detecção de casos: mais de 80% das pessoas que desenvolveram tuberculose em 2024 foram oficialmente diagnosticadas e notificadas. O país figura entre os que mais avançaram em diagnóstico rápido e mantém o financiamento maioritariamente com recursos domésticos, 96%, sinalizando autonomia na resposta nacional.

Já em Moçambique, o relatório mostra uma cobertura de diagnóstico acima de 80%, um dos melhores resultados entre os países africanos de alta carga, embora ainda existam desafios de confirmação bacteriológica, presente em apenas metade dos casos. O país também está entre os que registraram redução no número de notificações em 2025, exigindo atenção contínua.

Angola alcançou cobertura de diagnóstico para tuberculose resistente a medicamentos acima de 80% no ano passado, mas o relatório chama atenção para o alto número de famílias que enfrentam custos elevados com saúde. O país, no entanto, deixou a lista de países com alta carga de coinfecção TB/HIV, refletindo avanços importantes na integração de serviços.

Na Índia, um médico verifica o raio-X de um paciente em busca de danos pulmonares, o que pode indicar tuberculose

A tuberculose continua a ser a principal causa de morte por um único agente infeccioso no mundo. Em 2024, 10,7 milhões de pessoas adoeceram e 1,23 milhão morreram da doença, uma leve redução em relação a 2023, mas ainda acima dos níveis de 2020. A taxa global de incidência caiu 1,7% entre 2023 e 2024, voltando ao patamar de 131 casos por 100 mil habitantes.

Apesar dos progressos, o ritmo global permanece distante das metas da “Estratégia Fim” da doença: até 2025, a meta é reduzir a incidência em 50% e as mortes em 75%, mas os resultados atuais são de apenas 12% e 29%, respectivamente.

O relatório também indica que 54% dos novos casos são entre homens, 35% entre mulheres e 11% entre crianças.

A doença permanece fortemente concentrada: 87% dos casos mundiais estão em 30 países de alta carga, com Índia, Indonésia, Filipinas, China, Paquistão, Nigéria, República Democrática do Congo e Bangladesh representando 67% do total global.

Em 2024, o financiamento global para prevenção, diagnóstico e tratamento da tuberculose foi de US$ 5,9 bilhões, apenas 27% da meta anual de US$ 22 bilhões até 2027. Já o investimento em pesquisa atingiu US$ 1,2 bilhão em 2023, o equivalente a 24% do necessário.

A OMS alerta que os cortes internacionais previstos a partir de 2025 podem afetar gravemente os programas nacionais, sobretudo em países com alta carga da doença.

A OMS destaca que 101 países já alcançaram reduções de pelo menos 20% na taxa de incidência desde 2015, e 65 reduziram as mortes por tuberculose em 35% ou mais.

No entanto, a organização reforça que alcançar as metas globais dependerá de cobertura universal de saúde, proteção social e investimento contínuo em pesquisa, incluindo o desenvolvimento de uma nova vacina: atualmente, 18 candidatas estão em fase clínica, seis delas em testes de fase 3.

Com o Relatório Global da Tuberculose 2025, a OMS reforça o alerta: o progresso existe, mas é frágil. No meio a um cenário de restrição financeira, a liderança política e a cooperação internacional, serão decisivas para transformar avanços isolados em resultados sustentáveis rumo ao objetivo comum de acabar a epidemia global da tuberculose até 2030.

Por Afonso Vilas Boas da ONU News

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