A empresa portuguesa Sicasal retomou, após uma paragem de quatro meses, a produção de salsichas, chouriços e similares graças a um investidor angolano. Recorde-se que há mais de 50 anos, Angola tinha várias salsicharias em pleno funcionamento (Buçaco, Nova Aurora, Quilengues).
A Sicasal, indústria de carnes localizada no concelho de Mafra, retomou a produção fabril com cerca de 70 dos 250 trabalhadores, apesar de ter sido declarada insolvente pelo Tribunal da Comarca Lisboa Oeste em 6 de Janeiro.
“Foi com um misto de ansiedade, nervosismo, mas também com uma alegria enorme que nos voltámos a reencontrar no nosso espaço de trabalho”, disse à Lusa Norberto Esteves, encarregado geral da fábrica e membro da comissão de trabalhadores da Sicasal.
Um adiantamento de um cliente, por conta de uma encomenda de produto que começou a ser processado nas instalações de Vila Franca do Rosário, concelho de Mafra, permitiu retomar a produção na Sicasal após uma paragem de cerca de quatro meses.
Mais trabalhadores deverão ser chamados nas próximas semanas, à medida que novas linhas de produção forem sendo reactivadas, mas o director-geral da Sicasal, Jorge Pena, não avançou com um número nem com uma data concreta.
Mais trabalhadores deverão ser chamados nas próximas semanas à Sicasal
Depois de vários meses com salários em atraso – em falta ainda estão as remunerações de Novembro, de Dezembro e o subsídio de Natal -, a Sicasal pagou as retribuições de Janeiro aos 250 trabalhadores, por conta do adiantamento desse cliente cuja identidade o director-geral não quis revelar.
Desde que em 11 de Fevereiro a fábrica voltou a funcionar, a Sicasal está a produzir e a embalar salsichas e chouriços para exportação, destinadas ao mercado angolano, por conta do cliente Asli. A produção será alargada ao fiambre em lata, também para exportação.
De acordo com Jorge Pena, a reactivação da fábrica tornou-se possível com “a entrada de um fundo de maneio”, por parte desse cliente, e também devido à “dinâmica da equipa, que está muito motivada”.
Segundo o director-geral, que chegou à Sicasal no dia anterior à declaração da insolvência, os trabalhadores “são pessoas muito focadas e querem que a empresa continue”.
A Sicasal é um dos maiores empregadores do concelho de Mafra. A idade média dos seus cerca de 250 trabalhadores, alguns deles formando casais, está próxima dos 50 anos e a antiguidade média ronda os 20 anos.
O novo plano fabril aponta para uma produção de 500 toneladas mensais, o que corresponde a apenas um quarto da capacidade total, mas o director-geral explica que “a empresa esteve algum tempo parada e, como é óbvio, as máquinas necessitam de algum tempo de adaptação”.
O futuro da Sicasal deverá agora passar pela venda do capital a novos acionistas.
O director-geral, que já tinha sido consultor da empresa entre 2020 e 2021, garantiu que “há vários investidores” interessados.
“O maior activo são as pessoas e é a marca”, que é conhecida “nacional e internacionalmente”, conforme acrescentou.
Para a notoriedade da marca, contribuiu também o patrocínio entre 1986 e 1995 de uma equipa profissional de ciclismo, a Sicasal-Acral, vencedora da classificação geral da Volta a Portugal por três vezes – em 1987, 1989 e 1991.
Na primeira assembleia de credores, marcada para 4 de Março, Jorge Pena espera que sejam apresentados “planos de recuperação” da empresa, assentes na compra do capital e no perdão de uma parte substancial da dívida à banca e a fornecedores, que ultrapassa os 37 milhões de euros. Nessa reunião de credores, poderá ficar já decidida “uma nova administração para a empresa”, disse ainda.
“O potencial da empresa vai muito para além do que estamos a fazer, e esperamos que no dia 4 de Março apareçam interessados que possam reactivar a capacidade da empresa nas diversas áreas de frescos e de transformados, que possam salvaguardar os empregos de todos os trabalhadores e que levem a empresa para a dimensão que ela conquistou”, afirmou Norberto Esteves, o representante dos trabalhadores.
A Sicasal foi fundada em 1968 por Álvaro dos Santos da Silva, vocacionada para a produção e comercialização da carne fresca de suíno e produtos transformados de charcutaria.
Em Novembro de 2011, um incêndio destruiu parte da área de produção e a unidade fabril de Vila Franca do Rosário foi quase integralmente reconstruída, numa altura em que empregava cerca de 700 funcionários.
A empresa, que chegou a facturar perto de 100 milhões de euros (ME), perdeu quota de mercado nos últimos anos, fez investimentos em Angola que não geraram o retorno esperado, e o seu volume de vendas diminuiu significativamente, para 42,3 ME em 2024.
A situação financeira levou a uma acumulação de prejuízos, tendo registado um resultado líquido negativo de 3 ME, em 2022, 8,8 ME, em 2023, e 11 ME, em 2024.
A dívida aos 250 credores constituídos ascendia a 37 ME, dos quais 22,4 milhões a bancos – Millennium bcp (11,6 ME), Caixa Geral de Depósitos (4 ME), Novo Banco (3,6 ME) Abanca (2,5 ME) – e 9,4 ME a fornecedores.
A Promauto, empresa de promoção e relações públicas, destaca-se na lista de credores, com uma quantia de 4,1 ME.
Em Outubro, a Sicasal parou a produção e, no mesmo mês, a administração avançou para um Processo Especial de Revitalização (PER), junto do Tribunal da Comarca de Lisboa Oeste, para tentar recuperar a empresa propondo aos credores um perdão de 70% do valor da dívida e o pagamento faseado dos restantes 30%.
Além dos administradores da Sicasal, assinava o requerimento o proprietário da Promauto, Nuno Pardal Ribeiro, também ex-dirigente do Chega que actualmente está a ser julgado pelos crimes de recurso à prostituição de menores.
De acordo com o Jornal de Negócios, o PER foi recusado pelo tribunal por a empresa falhar a entrega de documentos de forma repetitiva.
Em Dezembro, o banco Millennium bcp, o maior credor, pediu a insolvência da Sicasal, tendo esta sido decretada em 6 de Janeiro pelo Tribunal de Lisboa Oeste e nomeado Jorge Calvete como administrador da insolvência.
A assembleia de credores foi marcada para 4 de Março, podendo ser apresentados planos de recuperação da empresa por parte do actual acionista ou de compradores interessados.
Em 2 de Fevereiro, Jorge Calvete admitiu à Lusa que o cliente que fez o adiantamento pudesse estar interessado em adquirir a Sicasal, adiantando que “não terá uma posição de vantagem”.
O plano é “ir chamando os trabalhadores por fases à medida que a produção avança”, disse ainda, referindo que o salário de Fevereiro está garantido para todos os funcionários.
Admitiu ainda que possa haver ajustamentos no pessoal, após se decidir se a empresa vai funcionar como antes, ou se vai eliminar áreas como o matadouro e desmanche.
Entretanto, o Sindicato dos Trabalhadores da Agricultura e das Indústrias da Alimentação, Bebidas e Tabacos de Portugal (SINTAB) demonstrou preocupação com a declaração de insolvência, “colocando centenas de postos de trabalho em risco”.
Condenou ainda “as opções estratégicas erradas e de falhas graves de gestão”, defendendo que “não é aceitável que décadas de trabalho e dedicação dos trabalhadores sejam colocadas em causa por decisões que não tiveram em conta a sustentabilidade económica e social da empresa”.
Folha 8
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