O tecido social português está a sofrer uma erosão silenciosa, mas profunda. Um novo estudo do ISCTE revela que os portugueses têm hoje menos amigos do que há uma década, sendo os mais jovens e os cidadãos com menores rendimentos as principais vítimas deste fenómeno de isolamento. O impacto é estrutural e coloca Portugal no centro de uma tendência internacional de solidão urbana e económica.
A carência de recursos financeiros não limita apenas o consumo; limita a humanidade e a rede de suporte. Segundo os investigadores, a redução do número de amigos e da frequência de convívios é significativamente maior nas classes com rendimentos baixos.
Cerca de 43% dos mais pobres afirmam sentir solidão, comparativamente a apenas 13% nas classes altas.
A precariedade laboral agrava o quadro: 24% dos trabalhadores precários e 39% dos desempregados vivem em isolamento, contra 18% dos que possuem contratos estáveis.
Os grupos socialmente desvalorizados enfrentam barreiras estruturais que impedem a manutenção de laços sociais de qualidade.
Ao contrário do mito de que os jovens estão sempre ligados, a realidade física é de isolamento. O estudo aponta que a geração actual reduziu drasticamente o número de “amigos íntimos” em comparação com os dados de 2015.
As práticas sociais de convívio presencial ainda não recuperaram dos níveis anteriores à pandemia de Covid-19.
Os jovens sentem-se actualmente mais sós, apesar da hiperconectividade digital.
O isolamento é particularmente agudo em comunidades específicas, como a população LGBT+, onde 35% reportam sentimentos de solidão.
A investigação sublinha que a rede de amigos é, em muitos casos, mais determinante para a felicidade individual do que os laços familiares. No entanto, é precisamente esta rede que está a falhar.
Cerca de 30% dos inquiridos sofre de falta de um círculo de amizades sólido.
A solidão é hoje classificada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como um problema de saúde pública grave.
A ligação social é fundamental para a saúde física, sendo a amizade um fator de proteção contra doenças mentais e cardiovasculares.
A investigadora Luísa Lima e a sua equipa defendem que a perceção pública ainda não acompanhou a gravidade da situação. Enquanto 60% dos portugueses julgam que os seus relacionamentos não mudaram, os dados objectivos mostram que o “capital social” – a riqueza das relações – está em queda livre para os menos favorecidos. É urgente a criação de espaços públicos de convívio e políticas que combatam a segregação social e a pobreza, sob pena de enfrentarmos uma epidemia de isolamento irreversível.
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