Uma reflexão sobre o significado e impacto da terceira visita papal ao país
por: Eugénio Costa Almeida*
A visita do Papa Leão XIV a Angola, que hoje se inicia e que irá até 21 de Abril, representa um marco histórico e espiritual para o país e para toda a comunidade católica. Trata-se do terceiro Pontífice a pisar solo angolano, sucedendo ao Papa João Paulo II, que visitou Angola em 1992, num momento crítico de transição política após os Acordos de Bicesse e num contexto de guerra civil, e segunda, em 2009, com Bento XVI, já num contexto de reconstrução pós-guerra civil. Tal continuidade evidencia a relevância que Angola tem vindo a assumir no cenário católico global, especialmente num momento em que as questões espirituais se entrelaçam com desafios sociais e políticos profundos.
Num mundo marcado por crises sucessivas (ambientais, sociais, económicas e geopolíticas) as expectativas que recaem sobre o Papa Leão XIV são particularmente elevadas. O Pontífice é visto, por muitos, como uma voz capaz de promover diálogo e reconciliação, valores essenciais numa era de polarizações e conflitos – os ataques de Trump a Leão XIV são sinónimos desta promoção dialogante e contrária a guerras sem sentido ou pouco oportunas. Em Angola, espera-se que a sua mensagem transcenda o âmbito religioso, estimulando uma reflexão sobre a justiça social, a paz e o desenvolvimento sustentável. A presença do Papa pode servir de catalisador para uma renovada consciência coletiva, tanto a nível local como internacional, sobre a importância de construir pontes em vez de muros.
A Muxima como epicentro de uma nova ética global
Um dos pontos altos da visita, será a peregrinação ao Santuário de Nossa Senhora da Conceição da Muxima, “Mamã Muxima” não é um gesto desprovido de simbolismo político. No Kimbundu, Muxima significa “coração”, e é precisamente ao coração dos problemas contemporâneos que o Papa pretende chegar. Num mundo fragmentado por conflitos assimétricos, crises climáticas e uma economia que muitas vezes exclui as periferias, o Pontífice utiliza a “Mamã Muxima” como uma metáfora de acolhimento e resistência.
Espera-se que, a partir deste santuário, Leão XIV lance uma encíclica “viva” sobre a necessidade de uma ecologia humana integral. Para Angola, o apelo à protecção da família e à justiça social ressoa com urgência, num contexto onde a riqueza dos recursos naturais ainda contrasta severamente com o quotidiano da maioria da população.
A visita papal à Muxima não só reforça a centralidade da espiritualidade mariana em Angola, como também destaca o papel da Igreja na promoção da coesão social e na preservação das tradições culturais. A Muxima, enquanto espaço de democratização da fé, serve de palco ideal para que o Papa Leão XIV aborde temas como a reconciliação nacional e o acolhimento dos mais vulneráveis, num espaço que, historicamente, tem servido de refúgio espiritual em tempos de adversidade e que possa reivindicar que a política recupere a sua função de serviço ao bem comum.
Desafios sócio-políticos e a “voz dos sem voz”
A nível interno, a sociedade angolana enfrenta, actualmente, desafios significativos. A desigualdade social, o desemprego juvenil, a corrupção e as tensões políticas continuam a marcar o quotidiano do país. Neste contexto, o papel da Igreja Católica revela-se fundamental, não apenas como agente espiritual, mas também como promotora de valores éticos e de justiça. O Papa, ao reunir-se com líderes religiosos e civis, poderá incentivar o fortalecimento de mecanismos de solidariedade e de diálogo, contribuindo para uma Angola mais inclusiva e pacífica. O envolvimento da Igreja em áreas como educação, saúde e proteção dos direitos humanos será, certamente, tema de destaque nas intervenções papais.
Neste sentido, a deslocação a Saurimo, prevista para o dia 20 de Abril, é particularmente estratégica. O Leste de Angola, historicamente menos visível do que o eixo litoral, representa os desafios da descentralização e do desenvolvimento equitativo. Ao deslocar o eixo da sua visita para o interior, o Papa valida as aspirações de populações que se sentem esquecidas pelo centro do poder em Luanda, reforçando a ideia de que não existem “províncias de segunda” no reino da justiça.
A questão Cardinalícia: três rostos para um destino
No centro das atenções eclesiásticas está a hipótese e esperança de um novo Cardeal para Angola, cujo último – e primeiro e único – Cardeal, Dom Alexandre do Nascimento, faleceu em 28 de setembro de 2024. A criação de um Cardeal não é apenas um título honorífico, mas uma afirmação da importância de uma Igreja local no Colégio Cardinalício que elegerá o futuro da Santa Sé. Três figuras de proa emergem nesta conjuntura:
- Dom Filomeno Vieira Dias, Arcebispo Metropolitano de Luanda, é um intelectual refinado e conhecedor profundo das dinâmicas do Vaticano. Personifica a estabilidade e a autoridade da capital. Uma sua nomeação seria a confirmação natural da centralidade de Luanda no mapa católico Africano;
- Dom José Manuel Imbamba, Arcebispo de Saurimo e actual presidente da Conferência Episcopal de Angola e São Tomé (CEAST), é um comunicador nato e uma voz crítica, embora diplomática, sobre as questões sociais. O facto de o Papa visitar a sua Arquidiocese, no próximo dia 20 de Abril, poderá ser interpretado como o “beijo da paz” que precede a púrpura; e esta é a minha perspectiva.
- Dom Belmiro Cuíca Chissengueti, Bispo de Cabinda e de onde é natural, porta-voz do CEAST e Coordenador central da recepção ao Papa, tem gerido uma das dioceses mais complexas de Angola com uma coragem pastoral notável. Representa o clero que não teme abordar as questões de direitos humanos e a identidade regional, alinhando-se com a preferência de Leão XIV por pastores que tenham o “cheiro das ovelhas”. Conseguiu apaziguar as questões pastorais dentro da província
Conclusão: um olhar para o futuro
Se Leão XIV anunciará o novo Cardeal durante a missa de despedida ou se guardará o anúncio para um Consistório em Roma, permanecerá no segredo pontifício até ao final da visita Papal. Contudo, o impacto desta visita já se faz, há um tempo, sentir. Ao caminhar pelo solo de Angola, o Papa não apenas recorda as passagens de João Paulo II e Bento XVI, mas actualiza o compromisso da Igreja com a dignidade africana.
Em síntese, a visita do Papa Leão XIV a Angola é carregada de simbolismo e potencial transformador. Mais do que um evento religioso, trata-se de uma oportunidade para o país reafirmar o seu papel na comunidade internacional, promover o diálogo inter-religioso e enfrentar os desafios sociais e políticos com renovada esperança. O legado desta visita poderá ser sentido durante anos, não apenas nas estruturas eclesiásticas, mas sobretudo na vida quotidiana dos angolanos que, inspirados pela mensagem papal, aspiram a uma sociedade mais justa, solidária e reconciliada.
*Pós-Doutorado; Investigador do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE-IUL (CEI-IUL), Investigador-Sénior Associado do Centro de Estudos para o Desenvolvimento Económico e Social de África (CEDESA/Angola Research Network) e Investigador-Associado do CINAMIL (Academia Militar de Lisboa)**
** Todos os textos por mim escritos só me responsabilizam a mim e não às entidades a que estou agregado
(imagem RNA, 2026Abril18)
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