A diáspora portuguesa não volta por milagres…

Jojo

As celebrações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, no Luxemburgo, trouxeram um momento simbólico: tanto o Presidente António José Seguro como o Primeiro‑Ministro apelaram aos emigrantes portugueses para que regressem ao país, ajudando a colmatar a escassez de mão de obra e a reforçar a população ativa. O gesto é politicamente compreensível — mas atrair a diáspora exige muito mais do que apelos emocionais à “saudade”. Exige condições reais, estáveis e competitivas.

Por Tiago Corais

Portugal continua a distinguir‑se no panorama europeu pela segurança pública, pelo clima, pela qualidade da alimentação e pelo bem‑estar geral. A proximidade à família alargada — avós, tios, redes de apoio informal — é um fator decisivo para quem quer constituir família, sobretudo para emigrantes que, nos países de acolhimento, raramente dispõem desse suporte. Programas estatais como o Programa Regressar oferecem incentivos relevantes, desde reduções significativas no IRS até apoios para viagens e transporte de bens. Mas permanece a questão essencial: serão estes estímulos suficientes para que a diáspora abandone vidas já consolidadas no estrangeiro?

Na minha opinião, não. E vale a pena recordar as razões pelas quais a “saudade de Portugal” já não basta para justificar o regresso.

A primeira razão é estrutural: nos países de acolhimento, a maioria dos trabalhadores — qualificados ou não — encontra mercados laborais dinâmicos, com progressão de carreira, salários atualizados e oportunidades constantes. Mesmo onde é mais fácil despedir, é também mais fácil encontrar novo emprego. No Reino Unido, por exemplo, os anúncios de emprego incluem a banda salarial, o que traz transparência e evita candidaturas inúteis. Quem procura trabalho sabe o seu valor; as empresas recebem apenas candidatos alinhados com a remuneração oferecida.

Em contraste, a cultura empresarial portuguesa continua a ser um obstáculo significativo. Muitas organizações mantêm práticas desatualizadas: pouca flexibilidade de horários, controlo rígido de entradas e saídas, foco na presença em vez da qualidade da entrega, e uma dificuldade persistente em garantir salários justos. Para quem já experimentou mercados mais modernos, regressar significa, muitas vezes, dar um passo atrás. O fosso salarial entre Portugal e a Europa Ocidental permanece um dos maiores entraves. O país precisa urgentemente de mais dinamismo no mercado de trabalho e transparência salarial.

A carga fiscal é outro elemento a considerar. Embora muitos emigrantes reconheçam que os serviços públicos portugueses — saúde, educação, segurança social — são frequentemente superiores aos dos países onde vivem, a tributação sobre o rendimento continua a pesar. Não sendo, na minha opinião, a maior barreira, é um tema que merece atenção política séria.

Mas o verdadeiro bloqueio — o mais grave e o mais urgente — são os custos da habitação. O aumento abrupto das rendas e dos preços das casas tornou praticamente impossível viver nos principais centros económicos: Lisboa, Porto, Braga, Algarve. Para quem regressa sem casa própria, o mercado é simplesmente inacessível. Os números mostram que o problema só não é ainda mais dramático porque 41,5% das famílias têm casa totalmente paga e 36,3% têm empréstimo, grande parte já amortizado. Apenas 22,2% da população vive em casa arrendada. Isto significa que o mercado de arrendamento é pequeno, caro e incapaz de responder às necessidades atuais — quanto mais às futuras.

Se nada mudar, dentro de dez anos enfrentaremos um cenário socialmente explosivo: mais emigração, mais pessoas sem acesso a habitação, mais risco de exclusão e criminalidade. O país não pode ignorar esta bomba‑relógio.

Por isso, agradeço o apelo do Presidente António José Seguro e do Primeiro‑Ministro. Mas peço — com toda a seriedade — que o foco político se concentre onde realmente importa: resolver a crise da habitação com a mesma urgência com que enfrentámos a pandemia. Sem isso, Portugal arrisca‑se a perder o futuro.

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