A CPLP Perante a Nova Ordem Internacional

A CPLP perante a nova ordem internacional ensaio de Adalberto Malú

Entre a Afinidade Linguística e a Relevância Geopolítica

por: Adalberto Malú*

Resumo

A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), criada em 1996, representa uma das experiências mais singulares de cooperação internacional baseada numa identidade linguística e histórica comum. Reunindo nove Estados distribuídos por quatro continentes, a organização possui características geográficas, económicas e estratégicas que lhe conferem potencial para assumir um papel mais relevante na ordem internacional emergente.

Contudo, num sistema internacional marcado pelo regresso da competição entre grandes potências, pela crescente importância dos recursos estratégicos, pela instabilidade regional e pelo surgimento de novas ameaças transnacionais, a CPLP enfrenta o desafio de transformar a sua afinidade cultural numa capacidade efectiva de influência política, económica e diplomática.

Este artigo analisa o potencial geopolítico da CPLP, destacando o papel do Atlântico Sul, a importância dos recursos naturais, os desafios de segurança e a posição estratégica de Angola enquanto actor regional africano e membro relevante da comunidade lusófona.

A principal conclusão é que a CPLP possui condições para evoluir de uma comunidade predominantemente linguística para uma plataforma estratégica intercontinental, desde que desenvolva mecanismos mais robustos de cooperação económica, segurança, inovação e concertação diplomática.

Palavras-chave: CPLP; Lusofonia; Geopolítica; Angola; Atlântico Sul; Política Externa; Segurança Internacional; Multipolaridade.

Mapa geopolitico da cplp comunidde de lingua portuguesa intercontinental dr adalberto malu

Mapa geopolítico da CPLP: uma comunidade intercontinental

A CPLP integra nove Estados distribuídos por África, Europa, América do Sul e Ásia, formando uma rede diplomática e estratégica com ligação entre diferentes espaços geopolíticos.

Introdução

A criação da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, em Lisboa, a 17 de Julho de 1996, ocorreu num momento histórico marcado pelo optimismo decorrente do fim da Guerra Fria e pela expectativa de consolidação de uma ordem internacional baseada no multilateralismo, na cooperação e no fortalecimento das instituições internacionais.

A CPLP nasceu com uma missão clara: promover a concertação político-diplomática entre os seus membros, incentivar a cooperação em diversos sectores e valorizar a língua portuguesa enquanto património comum.

Todavia, quase três décadas depois da sua fundação, o contexto internacional sofreu transformações profundas.

O mundo actual caracteriza-se por uma crescente competição estratégica entre Estados Unidos e China, pelo regresso da lógica de disputa entre grandes potências, pela instabilidade em várias regiões e pela emergência de novos factores de poder relacionados com tecnologia, energia, informação e controlo de recursos estratégicos.

Neste novo ambiente internacional, as organizações são avaliadas não apenas pela sua identidade, mas pela sua capacidade de produzir resultados concretos.

É precisamente neste ponto que surge o principal desafio da CPLP:

Como transformar uma comunidade baseada numa língua comum numa plataforma de influência estratégica internacional?

Quadro 1 — A dimensão global da CPLP

Indicador

Caracterização

Ano de criação

1996

Número de Estados-membros

9

Continentes representados

4

População estimada do espaço lusófono

Mais de 260 milhões de pessoas

Língua comum

Português

Principais espaços estratégicos

Atlântico Sul, Europa, América do Sul, Índico e Sudeste Asiático

Análise:

A dimensão geográfica da CPLP constitui um dos seus maiores activos estratégicos. Poucas organizações conseguem articular Estados localizados simultaneamente em África, Europa, América Latina e Ásia.

A CPLP como rede intercontinental

Adalberto malu cplp e paises constituintes comunidade lingua portuguesa

Mensagem:

A CPLP não é uma organização regional tradicional. É uma rede diplomática intercontinental.

Capítulo I- Da Lusofonia à Geopolítica: o desafio de transformar identidade em influência Internacional

A língua portuguesa constitui o elemento fundador da CPLP e representa um importante instrumento de aproximação entre sociedades diferentes. Contudo, a experiência internacional demonstra que a identidade cultural, isoladamente, não garante influência.

Os actores internacionais mais relevantes são aqueles capazes de transformar recursos simbólicos em capacidades estratégicas.

A União Europeia transformou a proximidade histórica entre Estados europeus numa estrutura política e económica com influência global.

A ASEAN converteu uma identidade regional numa plataforma de integração económica e segurança.

A União Africana procura transformar uma identidade continental numa capacidade colectiva de intervenção.

A CPLP enfrenta desafio semelhante.

A questão não é preservar a lusofonia, essa já existe.

A questão é transformar a lusofonia em poder diplomático, económico e estratégico.

Quadro 2 — Do património cultural ao poder estratégico

Recurso da CPLP

Potencial estratégico

Língua portuguesa

Diplomacia, educação, ciência e negócios

Distribuição geográfica

Ligação entre quatro continentes

Recursos naturais

Energia e minerais críticos

Espaço marítimo

Segurança e economia azul

Juventude

Mercado consumidor e força de trabalho

Diversidade regional

Ponte entre diferentes blocos internacionais

A lusofonia, enquanto conceito, ultrapassa a simples utilização da língua portuguesa. Ela representa um espaço de comunicação, circulação cultural, cooperação e construção de relações históricas entre povos com trajectórias distintas. No entanto, a evolução do sistema internacional demonstra que os factores culturais, embora importantes, não são suficientes para garantir influência geopolítica. Os actores internacionais com maior capacidade de projecção são aqueles que conseguem converter os seus recursos identitários, económicos, demográficos e estratégicos em instrumentos concretos de poder.

Neste sentido, a CPLP encontra-se perante uma questão central: como transformar a língua portuguesa num activo estratégico numa ordem internacional caracterizada pela competição, pela fragmentação e pela disputa por influência?

1.1. A CPLP e a superação da lógica exclusivamente cultural

Durante os primeiros anos da sua existência, a CPLP concentrou grande parte da sua actividade em áreas como educação, cultura, promoção da língua portuguesa, cooperação técnica e aproximação entre instituições públicas dos Estados-membros. Estes domínios continuam a constituir pilares fundamentais da organização, uma vez que a língua portuguesa representa um elemento de ligação entre sociedades com realidades políticas, económicas e sociais muito diferentes.

Todavia, a evolução do contexto internacional tornou evidente que as organizações com maior relevância são aquelas capazes de responder aos grandes desafios estratégicos do seu tempo.

A União Europeia, por exemplo, ultrapassou a sua origem económica para assumir uma dimensão política, diplomática e de segurança. A União Africana evoluiu de uma organização essencialmente política para uma estrutura com agendas relacionadas com paz, segurança, integração económica e desenvolvimento continental. A ASEAN transformou a proximidade geográfica numa plataforma de cooperação económica e estratégica com crescente influência na Ásia-Pacífico.

A CPLP possui igualmente condições para aprofundar a sua dimensão estratégica, mas necessita de uma mudança conceptual: passar de uma comunidade baseada principalmente na afinidade para uma comunidade orientada por interesses convergentes.

1.2. A geografia estratégica do espaço lusófono

Um dos maiores activos da CPLP é precisamente a sua geografia.

Ao contrário de muitas organizações internacionais, a CPLP não está limitada a uma região específica. A sua presença em África, Europa, América do Sul e Ásia oferece uma capacidade de articulação intercontinental rara.

Esta característica confere-lhe potencial para funcionar como uma ponte diplomática entre diferentes espaços geopolíticos.

Portugal integra simultaneamente o espaço europeu e atlântico, possuindo uma posição privilegiada na ligação entre a Europa, África e América. O Brasil, pela sua dimensão territorial, económica e demográfica, constitui uma das principais potências emergentes do Sul Global. Angola assume crescente relevância em África pela sua posição geográfica, recursos naturais e papel regional. Moçambique possui importância estratégica no Oceano Índico e na ligação com as dinâmicas económicas da África Oriental. Cabo Verde e São Tomé e Príncipe possuem posições marítimas relevantes no Atlântico.

Quando observados em conjunto, estes elementos demonstram que a CPLP dispõe de uma profundidade estratégica significativa.

O problema reside no facto de este potencial ainda não ter sido plenamente convertido em influência internacional.

1.3. O desafio da concertação política

Um dos objectivos fundamentais da CPLP é a concertação político-diplomática entre os seus membros. Esta dimensão permite que Estados com diferentes capacidades individuais possam actuar de forma coordenada em organizações multilaterais como as Nações Unidas.

Contudo, esta área continua a apresentar limitações.

Os Estados-membros possuem diferentes prioridades estratégicas e diferentes inserções internacionais. Portugal está profundamente integrado nas estruturas europeias e euro-atlânticas. O Brasil possui uma tradição diplomática marcada pelo multilateralismo e pela procura de autonomia estratégica. Angola procura consolidar a sua posição como potência regional africana e parceiro relevante entre diferentes blocos internacionais. Moçambique enfrenta desafios associados à segurança regional e ao desenvolvimento.

Estas diferenças não representam necessariamente um problema. Pelo contrário, podem constituir uma vantagem se forem geridas através de uma diplomacia de coordenação.

A diversidade interna da CPLP pode permitir que a organização funcione como um espaço de diálogo entre diferentes regiões e perspectivas do sistema internacional.

O desafio é transformar essa diversidade numa capacidade colectiva.

1.4. A necessidade de uma CPLP mais estratégica

A nova realidade internacional exige que a CPLP amplie a sua agenda.

A organização deve assumir maior intervenção em áreas como:

  • segurança marítima;

  • combate ao crime organizado transnacional;

  • segurança energética;

  • transformação digital;

  • inteligência artificial;

  • alterações climáticas;

  • cadeias globais de valor;

  • segurança alimentar;

  • mobilidade académica e profissional.

Estas áreas representam desafios comuns aos Estados-membros e oferecem oportunidades para uma cooperação mais profunda.

A segurança marítima constitui um exemplo particularmente relevante. O Atlântico Sul enfrenta desafios relacionados com pirataria, tráfico ilícito, exploração ilegal de recursos e necessidade de protecção das rotas comerciais. Uma cooperação estruturada entre os países lusófonos poderia contribuir para uma maior estabilidade deste espaço.

Da mesma forma, a transição energética mundial coloca os países da CPLP perante novas oportunidades. Angola, Brasil e Moçambique possuem recursos energéticos significativos, enquanto Portugal possui experiência tecnológica e ligação aos mercados europeus. Uma estratégia comum poderia criar novas formas de cooperação económica.

1.5. Da identidade histórica ao poder estratégico

A grande questão da CPLP no século XXI é a transformação da identidade em poder.

A língua portuguesa constitui uma vantagem diplomática. Permite comunicação directa, facilita relações institucionais e cria uma comunidade de conhecimento e cooperação. Contudo, para produzir influência internacional, essa identidade precisa de ser acompanhada por instituições eficazes, projectos concretos e maior capacidade de coordenação.

As grandes organizações internacionais não se afirmam apenas pelo que representam simbolicamente, mas pelo impacto que conseguem produzir.

A CPLP tem uma oportunidade histórica para evoluir de uma comunidade de afinidades para uma comunidade de interesses estratégicos.

O futuro da organização dependerá da capacidade dos seus Estados-membros compreenderem que a língua portuguesa não deve ser apenas um património cultural, mas um instrumento de projecção internacional.

Num mundo multipolar, onde influência significa capacidade de criar redes, estabelecer parcerias e defender interesses comuns, a CPLP possui recursos importantes. O desafio consiste em transformá-los numa verdadeira estratégia geopolítica.

Capítulo II — A nova ordem internacional e o espaço lusófono: Atlântico Sul, competição entre grandes potências e oportunidades estratégicas para a CPLP

A transição para uma nova ordem internacional constitui um dos fenómenos mais marcantes da política mundial contemporânea. O período que se seguiu ao fim da Guerra Fria, caracterizado pela predominância estratégica dos Estados Unidos e pela relativa estabilidade proporcionada pelo momento unipolar, deu lugar a um sistema internacional mais complexo, competitivo e fragmentado.

Actualmente, a ordem internacional caracteriza-se pela coexistência de diferentes centros de poder, pela disputa por influência entre grandes potências e pela crescente importância de actores regionais. A ascensão económica e tecnológica da China, o reposicionamento estratégico da Rússia, a procura de maior autonomia por parte de potências emergentes e a afirmação do chamado Sul Global demonstram que o poder mundial deixou de estar concentrado num único pólo.

Esta transformação cria desafios, mas também oportunidades para organizações como a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. O espaço lusófono encontra-se numa posição particularmente interessante, pois integra países localizados em zonas geográficas que assumem crescente importância estratégica: o Atlântico Sul, o Oceano Índico, a Europa e a América do Sul.

2.1. O regresso da geopolítica e a disputa por influência

Durante as primeiras décadas do pós-Guerra Fria, muitos analistas defenderam que a globalização económica conduziria a uma diminuição da importância da geopolítica tradicional. Contudo, os acontecimentos das últimas décadas demonstraram precisamente o contrário.

A competição entre Estados voltou a ocupar o centro das Relações Internacionais.

A disputa tecnológica entre Estados Unidos e China, a guerra na Ucrânia, as tensões no Indo-Pacífico, a instabilidade no Médio Oriente e a crescente competição pelo acesso a recursos estratégicos revelam que a capacidade económica, energética, tecnológica e militar continua a ser determinante na distribuição do poder mundial.

Neste ambiente, África ganhou uma nova centralidade.

O continente deixou de ser analisado apenas como espaço de desafios ao desenvolvimento e passou a ser encarado como uma região estratégica devido aos seus recursos naturais, crescimento demográfico, posição geográfica e importância para as futuras cadeias globais de produção.

A CPLP encontra-se inserida precisamente neste contexto.

Quatro dos seus Estados-membros são africanos e ocupam posições estratégicas no continente: Angola, Moçambique, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. A sua relevância ultrapassa a dimensão nacional, pois estão integrados em regiões fundamentais para a segurança e economia internacional.

2.2. O Atlântico Sul como espaço estratégico

Um dos elementos mais importantes para compreender o futuro da CPLP é a crescente importância do Atlântico Sul.

Durante muito tempo, este espaço marítimo recebeu menos atenção do que o Atlântico Norte, devido à concentração das grandes disputas estratégicas entre América do Norte e Europa. Contudo, esta realidade tem vindo a alterar-se.

O Atlântico Sul tornou-se fundamental por várias razões:

  • importância das rotas comerciais marítimas;

  • reservas energéticas offshore;

  • recursos minerais marinhos;

  • segurança das comunicações submarinas;

  • ligação entre África e América do Sul;

  • crescente competição por influência externa.

Angola e Brasil possuem particular relevância neste domínio.

O Brasil, pela sua dimensão continental e posição atlântica, é uma das principais potências marítimas do Sul Global. Angola, por sua vez, possui uma extensa costa atlântica, importantes recursos energéticos e uma posição central na África Austral.

A cooperação entre os países lusófonos do Atlântico pode representar uma oportunidade estratégica para reforçar a segurança marítima, promover investigação científica oceânica e proteger recursos naturais.

Neste sentido, a CPLP poderia assumir um papel mais activo na construção de uma visão comum para o Atlântico Sul.

2.3. Recursos naturais, transição energética e competição global

A transição energética mundial está a alterar profundamente a geopolítica dos recursos.

Durante grande parte do século XX, o petróleo e o gás natural estiveram no centro das disputas estratégicas internacionais. Actualmente, embora os hidrocarbonetos continuem fundamentais, minerais críticos como lítio, cobalto, cobre, níquel e terras raras assumem crescente importância devido à expansão das tecnologias verdes, baterias eléctricas e indústria digital.

Neste domínio, vários países da CPLP possuem activos estratégicos.

Angola possui importantes recursos energéticos e minerais, incluindo reservas petrolíferas, gás natural e potencial mineral ainda pouco explorado.

O Brasil possui uma das maiores reservas minerais do mundo e uma matriz energética com forte componente renovável.

Moçambique destaca-se pelo potencial energético, incluindo gás natural, além dos seus recursos minerais.

Portugal possui capacidade tecnológica e integração nos mercados europeus, particularmente no domínio das energias renováveis.

Esta complementaridade cria uma oportunidade para desenvolver uma verdadeira diplomacia económica lusófona.

A CPLP poderia funcionar como plataforma para promover parcerias industriais, transferência tecnológica e integração de cadeias de valor entre os seus membros.

2.4. A competição entre Estados Unidos, China e Europa no espaço lusófono

A crescente importância estratégica dos países lusófonos não passou despercebida às grandes potências.

A China aumentou significativamente a sua presença económica em África através de investimentos em infra-estruturas, energia, mineração e comércio. Angola tornou-se um dos exemplos mais relevantes desta relação, sobretudo devido à cooperação no sector petrolífero e financeiro.

Os Estados Unidos procuram igualmente reforçar a sua presença no continente africano, sobretudo em áreas relacionadas com segurança, energia, minerais críticos e competição estratégica com Pequim.

A União Europeia, por sua vez, considera África um parceiro fundamental para a sua segurança energética, estabilidade regional e diversificação das cadeias de abastecimento.

Neste cenário, os países da CPLP possuem uma posição interessante: podem funcionar como pontes diplomáticas e económicas entre diferentes espaços de poder.

Contudo, esta posição exige equilíbrio estratégico.

A crescente competição entre grandes potências obriga os Estados lusófonos a desenvolver políticas externas pragmáticas, baseadas na defesa dos interesses nacionais e na diversificação das parcerias.

2.5. A CPLP perante o desafio da autonomia estratégica

A nova ordem internacional coloca uma questão essencial: poderá a CPLP transformar a sua diversidade geográfica numa vantagem estratégica?

A resposta dependerá da capacidade dos seus membros para adoptar uma visão mais ambiciosa.

A organização não precisa de substituir outras estruturas regionais onde os seus membros estão inseridos. Angola continuará a ter a SADC como prioridade regional; Portugal continuará integrado na União Europeia; Brasil continuará ligado à América do Sul; Moçambique continuará inserido na África Oriental.

Contudo, a CPLP pode desempenhar uma função complementar: criar uma rede diplomática e económica entre diferentes regiões.

Num mundo marcado pela competição entre blocos, possuir uma rede própria de cooperação constitui uma vantagem estratégica.

Conclusão do capítulo

A nova ordem internacional oferece à CPLP uma oportunidade histórica. A organização dispõe de elementos que muitos actores internacionais procuram actualmente: posição geográfica, recursos naturais, mercados emergentes, ligação entre continentes e uma comunidade linguística global.

Todavia, o potencial não se transforma automaticamente em poder.

A CPLP terá de abandonar uma abordagem predominantemente simbólica e desenvolver instrumentos concretos de cooperação estratégica.

O futuro da organização dependerá da capacidade de transformar a língua portuguesa numa plataforma de influência diplomática, económica e geopolítica.

No século XXI, a lusofonia poderá deixar de ser apenas uma identidade partilhada e tornar-se uma verdadeira vantagem estratégica.

Capítulo III — Segurança, economia e o papel de Angola: desafios comuns e oportunidades para uma CPLP estratégica

A evolução do sistema internacional demonstra que a segurança e o desenvolvimento económico deixaram de ser dimensões separadas. No século XXI, a estabilidade dos Estados depende cada vez mais da capacidade de responder simultaneamente a ameaças militares tradicionais e a riscos transnacionais como terrorismo, criminalidade organizada, ciberameaças, insegurança alimentar, alterações climáticas e instabilidade económica.

Neste contexto, a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa possui condições para aprofundar uma agenda estratégica que ultrapasse a cooperação cultural e diplomática, assumindo maior relevância nos domínios da segurança, da economia e da governação internacional.

A diversidade geográfica dos seus membros constitui simultaneamente um desafio e uma oportunidade. Os Estados lusófonos enfrentam problemas distintos, mas partilham igualmente ameaças comuns que exigem respostas colectivas.

Para Angola, enquanto um dos países com maior peso político, económico e territorial dentro da CPLP, esta realidade representa uma oportunidade para reforçar a sua posição como actor regional e internacional.

3.1. Os novos desafios de segurança no espaço lusófono

Durante grande parte do século XX, os estudos de segurança internacional estiveram centrados principalmente nas ameaças militares entre Estados. Contudo, a realidade contemporânea demonstrou que muitas das principais ameaças actuais possuem natureza transnacional.

O terrorismo, o crime organizado, os fluxos financeiros ilícitos, a pirataria marítima e os ataques cibernéticos não respeitam fronteiras nacionais.

Os países da CPLP encontram-se directamente expostos a alguns destes desafios.

Em África, a expansão de grupos extremistas no Sahel, na Somália e em Cabo Delgado, no norte de Moçambique, demonstrou a capacidade das organizações terroristas para explorar fragilidades institucionais, desigualdades socioeconómicas e redes criminosas transnacionais.

Embora Angola não seja actualmente um palco de actividade terrorista, a evolução destas ameaças exige uma abordagem preventiva. A experiência internacional demonstra que a ausência de ataques directos não significa ausência de riscos.

As organizações criminosas contemporâneas operam através de redes financeiras, logísticas e digitais que atravessam diferentes territórios.

Neste domínio, a cooperação dentro da CPLP poderia ser reforçada através de:

  • partilha de informação estratégica;

  • formação conjunta de quadros de segurança;

  • cooperação entre forças policiais;

  • combate ao branqueamento de capitais;

  • reforço da segurança marítima;

  • cooperação em cibersegurança.

3.2. A segurança marítima como área estratégica de cooperação

A dimensão marítima representa uma das maiores oportunidades de cooperação entre os países lusófonos.

A maioria dos Estados-membros possui territórios costeiros e depende directa ou indirectamente dos oceanos para o seu desenvolvimento económico.

O Atlântico Sul, em particular, tornou-se um espaço estratégico devido à importância das rotas comerciais, dos recursos energéticos e da ligação entre África e América do Sul.

Contudo, esta região enfrenta desafios significativos:

  • pirataria marítima;

  • pesca ilegal;

  • tráfico de drogas;

  • tráfico de armas;

  • exploração ilegal de recursos;

  • vulnerabilidade das infra-estruturas marítimas.

Angola possui um interesse directo nesta agenda. Como país com uma extensa costa atlântica e importantes recursos petrolíferos offshore, a segurança marítima constitui uma componente fundamental da sua segurança nacional.

A CPLP poderia desenvolver uma estratégia própria para o espaço marítimo lusófono, promovendo:

  • exercícios conjuntos;

  • investigação oceanográfica;

  • formação naval;

  • mecanismos de alerta precoce;

  • cooperação entre autoridades marítimas.

Uma iniciativa desta natureza permitiria transformar uma característica geográfica comum numa vantagem estratégica.

3.3. A economia como instrumento de influência internacional

A dimensão económica constitui provavelmente uma das áreas onde a CPLP apresenta maior potencial ainda não explorado.

Apesar da existência de uma comunidade linguística com mais de 260 milhões de falantes, o comércio intra-CPLP permanece muito abaixo do seu potencial.

Esta realidade resulta de vários factores:

  • reduzida integração económica;

  • barreiras administrativas;

  • custos logísticos;

  • diferenças regulatórias;

  • limitada conectividade entre mercados.

Contudo, os Estados-membros possuem complementaridades importantes.

Angola e Brasil possuem recursos naturais, capacidade agrícola e potencial energético.

Portugal possui uma economia integrada no mercado europeu, capacidade tecnológica e acesso a redes financeiras internacionais.

Moçambique possui recursos energéticos relevantes e uma posição estratégica no Oceano Índico.

Cabo Verde e São Tomé e Príncipe possuem importância geográfica no Atlântico.

Timor-Leste possui uma localização estratégica no Sudeste Asiático.

Uma estratégia económica comum poderia apostar em:

  • facilitação do investimento;

  • internacionalização das empresas lusófonas;

  • cooperação energética;

  • segurança alimentar;

  • inovação tecnológica;

  • formação profissional.

A CPLP poderia transformar a língua comum numa vantagem económica, reduzindo custos de comunicação e facilitando parcerias empresariais.

3.4. Angola como actor estratégico dentro da CPLP

Entre os países da CPLP, Angola ocupa uma posição particularmente relevante.

A sua dimensão territorial, localização geográfica, população, recursos naturais e papel regional conferem-lhe capacidade para assumir uma liderança mais activa dentro da organização.

A política externa angolana tem procurado afirmar o país como um actor de equilíbrio regional, privilegiando o diálogo, a estabilidade e a cooperação multilateral.

A participação de Angola em organizações como a União Africana, a SADC e as Nações Unidas reforça a sua capacidade de articulação diplomática.

Neste contexto, a CPLP constitui um instrumento complementar da sua política externa.

Angola pode utilizar a organização para:

  • reforçar a sua diplomacia económica;

  • atrair investimento;

  • promover a segurança regional;

  • ampliar parcerias tecnológicas;

  • aumentar a sua influência internacional.

Ao mesmo tempo, uma CPLP mais forte beneficia Angola porque amplia o seu espaço diplomático para além da dimensão exclusivamente africana.

3.5. O desafio da transformação institucional da CPLP

Apesar do seu potencial, a CPLP necessita de reformas para responder melhor aos desafios contemporâneos.

Uma organização internacional torna-se relevante quando possui capacidade operacional, recursos e instrumentos concretos.

Neste sentido, alguns caminhos estratégicos poderiam ser considerados:

Primeiro, reforçar a componente económica, criando mecanismos mais eficazes de promoção do comércio e investimento.

Segundo, desenvolver uma agenda comum de segurança, especialmente nos domínios marítimo, digital e combate ao crime transnacional.

Terceiro, aumentar a mobilidade entre os cidadãos dos Estados-membros, promovendo circulação académica, científica e empresarial.

Quarto, fortalecer a produção de conhecimento através de centros de investigação, universidades e redes científicas lusófonas.

Quinto, criar maior articulação diplomática nos grandes fóruns internacionais, permitindo que posições comuns tenham maior peso político.

Conclusão do capítulo

A CPLP encontra-se perante uma escolha estratégica: permanecer essencialmente como uma comunidade de cooperação cultural ou evoluir para uma plataforma de influência internacional.

Os desafios contemporâneos demonstram que nenhum Estado consegue responder isoladamente às ameaças globais. Segurança, economia, tecnologia e diplomacia estão cada vez mais interligadas.

Neste cenário, Angola possui uma oportunidade particular para contribuir para uma nova fase da organização.

Uma CPLP mais estratégica não significa substituir outras organizações regionais ou criar novos blocos de poder. Significa utilizar uma identidade comum para construir instrumentos concretos de cooperação e influência.

O futuro da lusofonia dependerá da capacidade dos seus Estados de transformarem uma herança histórica numa estratégia colectiva para o século XXI.

Capítulo IV — Conclusão: A CPLP como actor geopolítico do século XXI e o futuro da lusofonia na ordem internacional multipolar

A análise desenvolvida demonstra que a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa se encontra perante um momento decisivo da sua história institucional. Criada num contexto internacional marcado pelo optimismo do pós-Guerra Fria e pela valorização do multilateralismo, a CPLP enfrenta actualmente uma realidade internacional profundamente diferente, caracterizada pela competição entre grandes potências, pela fragmentação da ordem global e pelo surgimento de novos desafios que ultrapassam as fronteiras tradicionais dos Estados.

A questão central que se coloca não é se a CPLP possui relevância, mas sim se terá capacidade para transformar os seus recursos históricos, humanos e geográficos em verdadeira influência estratégica.

A resposta dependerá da capacidade dos seus Estados-membros compreenderem que, no século XXI, a influência internacional não resulta apenas da dimensão territorial, económica ou militar de um Estado isolado. Resulta igualmente da capacidade de construir redes, estabelecer parcerias, produzir conhecimento e actuar colectivamente em defesa de interesses comuns.

Neste sentido, a CPLP dispõe de activos estratégicos consideráveis.

A língua portuguesa constitui um dos seus maiores elementos de diferenciação. Falada por centenas de milhões de pessoas em diferentes continentes, representa uma plataforma de comunicação, cooperação e circulação de conhecimento. Contudo, a língua, por si só, não gera poder. Para transformar a lusofonia num instrumento geopolítico, é necessário associá-la a estratégias concretas de cooperação económica, científica, tecnológica e diplomática.

A experiência de outras organizações internacionais demonstra que comunidades baseadas em afinidades históricas podem alcançar maior influência quando desenvolvem mecanismos institucionais eficazes e respondem às necessidades dos seus membros.

A União Europeia transformou uma relação económica inicial numa estrutura política e estratégica de grande impacto internacional. A ASEAN converteu a proximidade regional numa plataforma de integração económica e segurança. A União Africana procura transformar uma identidade continental comum numa capacidade colectiva de intervenção.

A CPLP possui características próprias que podem permitir uma evolução semelhante, embora respeitando a sua natureza e as diferenças entre os seus membros.

4.1. Da comunidade linguística à comunidade estratégica

O principal desafio da CPLP consiste em ultrapassar uma visão limitada da lusofonia enquanto simples espaço cultural.

A cultura e a língua continuam a ser fundamentos essenciais, mas devem funcionar como instrumentos para objectivos mais amplos.

Uma comunidade estratégica lusófona poderia actuar em áreas fundamentais:

  • diplomacia e concertação política;

  • segurança marítima;

  • combate ao crime organizado;

  • cooperação tecnológica;

  • transição energética;

  • segurança alimentar;

  • investigação científica;

  • mobilidade académica e profissional.

O objectivo não seria criar uma estrutura concorrente de outras organizações regionais, mas aproveitar a posição singular dos seus membros para construir pontes entre diferentes regiões do mundo.

A CPLP possui uma característica rara: integra Estados pertencentes a diferentes espaços geopolíticos. Portugal está ligado à Europa; Brasil à América do Sul; Angola e Moçambique ao continente africano; Timor-Leste ao Sudeste Asiático.

Esta diversidade pode transformar-se numa vantagem diplomática num mundo onde a capacidade de ligação entre regiões será cada vez mais valorizada.

4.2. Angola e a oportunidade de uma liderança estratégica

Dentro deste processo, Angola possui condições particulares para desempenhar um papel de maior protagonismo.

A sua dimensão territorial, localização na África Austral, recursos naturais, posição no Atlântico Sul e participação activa em organizações regionais e multilaterais conferem-lhe capacidade para contribuir para uma agenda mais ambiciosa da CPLP.

A política externa angolana tem procurado afirmar o país como um actor de estabilidade regional, privilegiando a mediação diplomática, a cooperação e o multilateralismo.

Uma CPLP mais estratégica poderá servir os interesses nacionais de Angola através de vários caminhos:

  • reforço da diplomacia económica;

  • atracção de investimento estrangeiro;

  • diversificação das parcerias internacionais;

  • promoção das empresas angolanas;

  • cooperação científica e tecnológica;

  • aumento da influência diplomática.

Ao mesmo tempo, Angola pode contribuir para aproximar a CPLP das dinâmicas africanas, garantindo que a organização atribui maior importância às prioridades do continente, como industrialização, segurança alimentar, integração regional e desenvolvimento sustentável.

4.3. O futuro da CPLP num mundo multipolar

A ordem internacional emergente será provavelmente marcada por maior competição, mas também por maior necessidade de cooperação.

Nenhuma potência ou organização conseguirá responder isoladamente aos desafios globais.

Neste contexto, as organizações intermédias, capazes de estabelecer ligações entre diferentes regiões, poderão adquirir uma importância crescente.

A CPLP pode desempenhar precisamente esse papel.

Pode funcionar como:

  • uma ponte entre Europa, África, América Latina e Ásia;

  • uma plataforma de diálogo entre diferentes modelos de desenvolvimento;

  • um espaço de cooperação entre economias complementares;

  • uma rede diplomática num sistema internacional fragmentado.

Contudo, para alcançar esse objectivo, será necessário superar algumas limitações.

A organização precisa de maior capacidade operacional, maior envolvimento dos sectores privados, maior ligação entre universidades e centros de investigação e uma agenda internacional mais orientada para resultados.

A influência não se constrói apenas através de declarações políticas ou encontros diplomáticos. Constrói-se através de projectos concretos, instituições eficientes e capacidade de produzir soluções.

4.4. Considerações finais

A CPLP encontra-se perante uma oportunidade histórica.

A sua existência demonstra que uma identidade comum pode sobreviver para além das fronteiras nacionais e das diferenças políticas. Contudo, a relevância futura da organização dependerá da capacidade de transformar essa identidade numa estratégia.

A lusofonia do século XXI não deve ser entendida apenas como memória histórica. Deve ser encarada como um activo geopolítico.

Num sistema internacional marcado pela competição por influência, pelos desafios de segurança e pela disputa por recursos estratégicos, os países lusófonos possuem uma oportunidade única para actuar colectivamente.

O futuro da CPLP dependerá menos daquilo que os seus Estados representam simbolicamente e mais daquilo que conseguem construir conjuntamente.

A pergunta fundamental já não deve ser:

O que une os países de língua portuguesa?”

Essa resposta é conhecida: a língua, a história e os laços culturais.

A verdadeira pergunta estratégica é:

O que podem estes países construir juntos num mundo em transformação?”

A resposta poderá determinar se a CPLP permanecerá apenas como uma comunidade cultural ou se evoluirá para um actor geopolítico relevante no século XXI.

Referências bibliográficas

  1. CPLP — Declaração Constitutiva (1996).

  2. União Africana — Agenda 2063.

  3. SIPRI Yearbook 2025.

  4. Kissinger — World Order.

  5. Nye — The Future of Power.

  6. Buzan & Wæver — Regions and Powers.

  7. Banco Mundial — Relatórios de Desenvolvimento.

  8. FMI — Perspectivas Económicas Regionais para África.

* Especialista em Relações Internacionais | Analista Geopolítico | Docente Universitário | Mestrando em Ciência Política (Especialização em Comércio Internacional)

Sobre o autor

Dr adalberto malu angolaAdalberto Malú é especialista em Relações Internacionais, analista geopolítico e docente universitário angolano. É licenciado em Relações Internacionais pelo Instituto Superior Politécnico Maravilha de Benguela e mestrando em Ciência Política, com especialização em Comércio Internacional.

Dedica-se à análise da geopolítica contemporânea, política externa, segurança internacional, cooperação internacional e dinâmicas estratégicas de África no sistema internacional. Exerce funções na Associação dos Especialistas Angolanos em Relações Internacionais (AEARI), contribuindo para a produção de conhecimento e promoção do debate sobre Relações Internacionais em Angola.

Tem participado em debates académicos e intervenções nos meios de comunicação social nacionais e internacionais, analisando temas relacionados com geopolítica, diplomacia, segurança internacional e política externa angolana.

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